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The Healing Dance

O Fluir, o Movimento,

as Posições e as Transições

Introdução

Fluir, movimento, posições e transições são aspectos da nossa vida na Terra. No contexto de aquaterapia a maneira como executamos esses aspectos constituem metáforas de nossas perspectivas sobre as habilidades necessárias à vida. Do mesmo modo que as íris, as palmas das mãos, o pulso, o rosto, as orelhas e as solas dos nossos pés tão verdadeira e eloqüentemente revelam a identidade de nosso corpo; assim como nossa caligrafia, voz e postura revelam nossa realidade psicológica, nosso movimento é um retrato preciso do nosso eu mais íntimo.

O Fluir

O Fluir é um estado natural no qual um evento segue-se a outro sem quebras ou rupturas. O fluir constitui a graça da vida; é a continuidade da experiência, o sincronismo perfeito e coordenação, aquela qualidade divina do correto desenrolar das coisas.

No mundo natural, o fluir é a inércia da continuidade insolúvel através da qual o dia se torna noite, e os seres vivos crescem imperceptivelmente. É o rio e o vento, é o osso, o tendão e o músculo interligando-se, é o sangue e a linfa circulando em ciclos intermináveis; é uma respiração seguida de outra.

O fluir está presente no pensamento, no sentimento, no ser e no fazer. Constitui a base da dança, sendo cada provimento originado do antecedente. O fluir está no toque do pincel do pintor, na melodia de uma canção, e na espontaneidade da fala e da escrita, onde um pensamento leva ao seguinte.

O fluir é uma qualidade inerente ao movimento. O movimento simboliza a mudança, mas o fluir é o princípio do progresso coletivo, da interconexão universal. Em aquaterapia, o fluir engloba o movimento, as posições e as transições. Mesmo quando o fluir do movimento passe a impressão de parada nas pausas, um sutil fluir de realização interna estará ocorrendo: o fluir está presente em níveis mais sutis. Um receptor como que ‘engravida’ com todo o estímulo que recebe, e precisa processar um certo grau de integração desses diferentes estímulos, classificando-os e ‘arquivando-os’ em suas respectivas pastas.

Como folhas de uma palmeira que se movem ao sabor de um vento invisível, o corpo na água se contorce e se move ao sabor das correntes geradas pelo doador. Quando o corpo participa do fluir de um movimento, ele relaxa e se entrega. Na água, por não sofrer o impacto total da força gravitacional que o força a contrair-se, o corpo relaxa e assume posições de inocência, de abertura, sem defesas. Ele adquire uma aparência tão bonita que jamais pode ser notada na terra. Ele se torna parecido com a água, respondendo aos estímulos que recebe, totalmente entregue, humilde.

Quando o corpo se entrega ao fluir de um movimento, o fluir de seus sentimentos é otimizado: bloqueios e resistências tendem a se dissolver. Os sentimentos começam a fluir de um parceiro para o outro e vice-versa. Um sentimento de energia de um dos parceiros é passado e sentido pelo outro, e terá o efeito de despertar a consciência de outro sentimento, o qual por sua vez levará à consciência de ainda outro sentimento; ou seja, sentimentos serão desbloqueados e consequentemente expressos como que em uma reação em cadeia.

Ser capaz de integrar-se ao fluir do doador permite ao receptor entrar em um estado fluido de consciência. A capacidade do doador de estar integrado consigo mesmo e ao mesmo tempo presente para o receptor, sentindo e aceitando os sentimentos deste, é o que cria um espaço curativo para a liberdade.

O Movimento

O movimento permeia tudo que nos rodeia: o universo se expande e se contrai em um amplo movimento de inspiração e expiração; as galáxias giram em volta de seus eixos; e os planetas em volta do sol. A Mãe Terra faz uma rotação em seu eixo fazendo com que seus oceanos e sua atmosfera fluam em correntes intermináveis. A crosta terrestre está em um constante fluir, à medida que as placas teutônicas deslizam e mudam de posição acima das correntes de magma incandescente.

Nosso microcosmo espelha esta dança do macrocosmo no movimento incrivelmente rápido das moléculas, átomos e partículas subatômicas. Mesmos as estruturas aparentemente inanimadas da natureza apresentam algum tipo de movimento.

Todo ser vivo experimenta o movimento, até mesmo as plantas que estão arraigadas no solo. Nós, seres humanos, com nossos nervos, músculos, ossos e articulações, certamente fomos projetados para o movimento. O movimento é tão fundamental à nossa existência que nós o aceitamos sem questionamento ou reflexão; a consciência do movimento aparece somente quando um machucado ou uma doença nos imobiliza. O movimento constitui uma premissa não questionada de nossa vida diária.

O movimento é visto como algo mais importante que a própria sobrevivência; ele é fonte de prazer, de extrema alegria e felicidade quando nós brincamos ou praticamos algum esporte. Até mesmo a experiência passiva do movimento é excitante, quando por exemplo velejamos, voamos de asa delta, vamos à montanha-russa ou passeamos em carros possantes. Nós realmente ‘curtimos’ a velocidade e a ilusão de poder, sentimos o vento passar por nós, nos esquecemos do passado e vivemos intensamente o momento.

Esta sensação de renovação e de um novo frescor em nossas vidas é ainda mais ressaltada quando dançamos, pois uma nova dimensão é então acrescentada: a auto-expressão. A criatividade, a descarga de energias até então presas e a espontaneidade da dança podem qualificá-la como sendo curativa.

Entretanto, o movimento possui uma função ainda mais importante do que o prazer ou a cura: ele é essencial ao desenvolvimento neurológico normal de todos os seres humanos e dos animais. A partir da mais tenra infância progredimos através de estágios de movimento que podem ser comparados à progressão evolutiva das espécies. Essa evolução se inicia com a ondulação da espinha como o movimento de um peixe, e culmina com o engatinhar imitando o movimento de um mamífero; a partir desses movimentos, estaremos sempre integrando as duas metades de nosso cérebro até atingirmos nossa fase adulta, onde essa integração será expressa em movimentos como caminhar, correr e nadar.

O movimento nos proporciona um estado de ser ao qual podemos nos entregar; uma boa comparação é um bebê entregando-se ao sono que o toma quando seu berço é balançado. Tanto quanto nos aninhamos na segurança do ritmo contínuo de nossa respiração, da noite e do dia, e das estações do ano, ao proporcionarmos ao nosso cliente um ambiente de aquaterapia onde haja um movimento rítmico e cíclico estaremos oferecendo-lhe um ninho seguro, algo em que ele possa confiar e permitir-se entregar-se a esse ambiente.

Um ciclo constitui-se de um movimento que ocorre em um padrão de relativa estabilidade. Os elementos principais da experiência humana, tal como o trabalho, os relacionamentos e a saúde ocorrem em ciclos. Os movimentos circulares e fluidos da Dança Curativa são igualmente cíclicos. Esses movimentos – ondas, espirais, círculos e figurações em ‘8’ (oito) são sagrados, como mandalas espaciais sendo vivenciados. Quando executados com consciência, como em um sacramento, são ensinamentos propriamente ditos. Por isso, eles são finitos em si mesmos.

Quando um ciclo se repete, o receptor o incorpora ao seu repertório de estímulos, o experimenta de determinada maneira, e torna-se pronto para passar para uma nova experiência. O doador deve ser capaz de sentir isso ocorrendo, e então permitir que o próximo movimento aconteça. Ao mover-nos em sintonia com nosso parceiro, devemos sempre questionarmo-nos: "O que será que meu parceiro está experimentando agora? O que virá a seguir?"

As Posições

Uma posição é um espaço onde permanecemos, como uma pausa em uma viagem. A posição é como uma foto instantânea no tempo, um local de descanso temporário. Uma posição física pode ser vista por nossos sentidos mais limitados como uma parada, mas nossa consciência expandida registrará o movimento do cosmo no qual todos nós somos como que passageiros. A terra, o sistema solar e as galáxias estão em constantes movimentos espirais no universo: sendo assim, nossa posição está sempre mudando.

Os processos internos de nosso corpo igualmente nunca param, mesmo quando estamos dormindo, e nossa psique não permite pausas em sua constante atividade em outras dimensões. A ‘parada’, a pausa, é uma ilusão; a realidade é movimento.

Em aquaterapia, como na visão expandida de nosso micro e macrocosmo que apresentamos acima, as posições mudam. Podemos definir as posições como pontos estagiários para os movimentos, que nos fornecem alavancagens diferentes para movermos o receptor. Constituem uma particularidade de nosso trabalho na água os movimentos que integram estabilidade e mudança, onde uma parte do corpo estará seguramente ancorada no contado acalentador do corpo do doador, enquanto o resto do corpo se move em ondas e alongamentos.

O contato com o doador através das mãos, braços, peito, pescoço, cabeça e pernas define cada posição e contribui para determinada experimentação emocional. As posições na Dança Curativa variam entre um contato mínimo até a intrusão da presença do doador em um abraço, envolvendo o receptor com um toque maior.

Todas as posições podem ser consideradas como santuários, nos quais nosso corpo resplandece com o coração e com a devoção; elas são refúgios da turbulência do mundo, portos seguros imbuídos das qualidade maternas protetoras. As posições nas quais nos sentimos confortáveis tanto como doadores ou receptores fornecem a exata medida de nossa capacidade de doar e de receber um amor acalentador. O praticante que abraça ou segura seus receptores com um envolvimento muito superficial, ou o receptor que n<ao consegue desfrutar da proximidade confortante, provavelmente necessitam aprender algo, a devem usar suas preferências e seus desconfortos como ponto de partida para a reflexão e a descoberta.

As Transições

Uma das áreas mais difíceis de se discutir são as transições pelas quais passamos em nossas vidas. Transições promovem a realização da necessidade de mudança, de confiar-se no desconhecido, de deixar para trás o velho e dirigir-se ao novo, e finalmente, de estabelecer um novo equilíbrio e estabilidade. Ansiedade e riscos são inerentes às transições, mas são necessários para que possamos seguir em frente.

Transições constituem ensinamentos importantes. Uma transição bem sucedida é tão recompensadora, é como uma vitória! Nós cruzamos o ‘Grande Oceano’ e estamos mudados de um modo definitivo.

Em aquaterapia, assim como na vida, as transições provavelmente representam a parte mais difícil da técnica, mas, ao mesmo tempo, a chave para a excelência do trabalho. Na água, as transições ligam uma posição à outra. As mãos devem soltar-se: as mãos e o segurar são simbólicos da manipulação e do controle. Como quando estamos subindo uma escada, devemos soltar um pé para darmos o próximo passo. O medo da mudança destorce o movimento, inibindo-o ou apressando-o.

Ao invés de ser uma ‘caminhada’ agradável, a transição se torna uma ‘corrida em uma rua escura’, onde nossas mãos estão tensas, preparadas para uma defesa. Durante nossa prática, pudemos observar que alguns alunos ficam paralisados diante de uma transição, outros ‘enrolam’ ou esquecem o que fazer; outros ainda ‘jogam’ a cabeça do parceiro ou a afundam na água.

Tem-se a impressão que as transições que fizemos nas primeiras etapas de nossas vidas exercem alguma influência sobre os estilos de transições observadas em praticantes. Por exemplo: o divórcio dos pais, a morte de um ente querido, mudanças para outros países ou até mesmo para outra escola, fatos que podem ter acontecido quando nós não tínhamos os recursos emocionais necessários para lidar com eles e que, por conseguinte, exerceram algum impacto sobre nós. Infelizmente, uma criança facilmente interpreta uma mudança como uma perda.

Uma reflexão sobre como encaramos as transições da vida pode ser de grande valia para alunos iniciando-se na prática de aquaterapia. Transições sutis e graciosas vêm da crença que elas fazem parte do fluir do movimento, e assim podemos deixar de encará-las como acidentes cruéis em nosso percurso, que devem ser evitados. No tocante à técnica, precisamos inicialmente aprender a ‘fluir’ as transições em ciclos, separadamente dos outros movimentos, para então mentalmente podermos integrá-las ao fluir do movimento total.

Aqui estão algumas dicas:

  1. Imagine que seu parceiro está dormindo e você não deve acordá-lo.
  2. Algumas transições exigem movimentos diretos e com uma certa velocidade; outras são mais apropriadamente executadas vagarosamente. Aprenda a saber qual o ritmo a imprimir a cada transição.
  3. O corpo sempre flutua quando puxado pela cabeça.
  4. O corpo rola mais facilmente quando está alinhado em seu eixo longitudinal.
  5. Para segurar uma perna ou para posicionar-se entre as pernas do parceiro você deve executar o movimento no momento certo do fluir.
  6. Nossa própria mecânica corporal ao mover-nos, girar-nos, afundar ou levantarmo-nos na água deve acompanhar o comportamento espacial de nosso parceiro.
  7. Como na vida, confiança em si mesmo, uma visão clara do objetivo a ser alcançado e coragem são características importantes a serem cultivadas.
  8. Mentalize o seguinte mantra: Isso me é fácil e prazeroso.

 

 

 

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